Syracuse, NY - EUA - Relatório 18

Mundo Árabe

Infelizmente não tenho nenhuma foto para acompanhar este post. Mas tenho que dizer que ele contém as coisas mais interessantes que já vi aqui nos Estados Unidos. Pelo menos pra mim.

Já faz alguns anos que desenvolvi um interesse muito grande em ler a respeito da cultura oriental. Começou com o Caçador de Pipas, depois li A Cidade do Sol (do mesmo autor), e que se tornou o meu livro preferido. Pena que não virou um filme. Até o meu gato recebeu o nome de um dos personagens do livro. Tarik.
Só que é muito difícil encontrar literatura oriental no Brasil. E é uma pena, porque os livros são muito diferentes das histórias que estamos acostumados. Em que existe um final feliz ou um triste. Muitas vezes a história não é real, os personagens não existem, mas aquela é a história de muitas pessoas que estão lá. Que vivem em situações de extrema riqueza e extrema pobreza. E as histórias não têm um final. É uma mistura de tristeza, com esperança de um dia melhor, ou um momento feliz que você sabe que é temporário... é difícil explicar. Já li também Chuva Dourada, Os Fios da Fortuna e O Livreiro de Cabul (esse sim é uma história real).
Também peguei uma mania de assistir trailers de musicais indianos. Duvido que muita gente ia gostar, mas eu ficaria muito feliz se a produção cinematográfica de Bolywood se espalhasse pelo Brasil. Adoro as músicas e as danças árabes. E gostaria muito de aprender e usar um daqueles saris maravilhosos. Os romances nos filmes são muito surreais. Fica meio que aquele conto de fadas de criança mesmo, e acho que as meninas árabes que conheci também acham sem graça. Os personagens ficam naquele amor distante... dançam, chegam perto, muito perto, mas nunca vi eles se beijarem. É muito estranho.

Mas vamos à história.
Na minha classe de inglês tem 4 meninos das Arábia Saudita e uma menina. Na verdade tem muitos árabes estudando inglês lá. E o interessante é que eles são meio diferentes entre si. Tem umas meninas que preferem cobrir o rosto todo (deixar só os olhos à mostra) e outras usam túnicas até os pés e um lenço cobrindo o cabelo. Outras nem usam túnica. Só o lenço. Dizem que isso depende de quão próximas estão da sua religião.
A menina da minha turma disse que no país dela, elas usam brca, mas aqui ficaram com medo de serem rejeitadas se fizessem isso. Por isso, se deram um pouco de liberdade de mostrar o rosto. E o engraçado é que os lenços te deixam curiosa pra saber como é o cabelo delas.
Não vou identificar os nomes, apesar de serem muito comuns, porque sentimos meio que na obrigação de preservar o sigilo que elas guardam em torno de si.
Mas as meninas árabes em geral são muito simpáticas. A que estuda comigo me convidou pra ir na casa dela ontem pra almoçar. Comer barbecue, que é um negócio que envolve churrasco e outras coisas. As amigas dela convidaram a Layla, que é a brasileira que veio comigo de Viçosa pra cá.
Bom, aí já quero relatar uma coisa muito engraçada. Fomo pra lá às 14h, mas quando almoçamos mesmo já eram mais de 20:30h. É como se o almoço fosse um ritual. Não sei se é sempre assim, mas foi muito interessante.
Chegando lá, tive um choque. Não sei por que, mas eu esperava que elas ficariam com os lenços dentro de casa, mas não. Elas usam roupas bem coloridas. Umas já são praticamente americanas. Usam camisetas com desenhos de super herois, jeans; outras já preferem vestidos. E elas se arrumam todas pra ficar em casa. Passam maquiagem, muito perfume... se eu soubesse disso, teria me vestido melhor.
São realmente muito vaidosas. Colocam joias. Acho que elas são muito ligadas a essas coisas, e isso se encaixa perfeitamente com o que li nos livros. São coisas extremamente valorizadas em suas culturas.
E elas moram em uma casa muito boa aqui. Eu esperava chegar lá, e ver uma grande sala, sem sofás os cadeiras, onde todo mundo sentaria em almofadas no chão. E as meninas lavariam roupas e louça não mão. Mas elas têm lavadoura e secadora de roupas e até lavadora de pratos em casa! E claro, sofás, mesa...
Chegando lá, as meninas prepararam uma mesa cheia de doces e coisas pra gente degustar até o almoço. Passamos o dia todo comendo chips com diversos patês, balas e doces que vieram direto da Arábia Saudita!! E são muito bons!! Só não gostei do café. Não consigo chamar de café. Parece chá, e é branco. Mas a Layla adorou. As meninas não fizeram churrasco, fizeram comidas típicas pra gente experimentar. Confesso que fiquei super receosa, mas me surpreendi quando experimentei.
Acho que sou muito chata com comida. O que é salgado no Brasil, pra mim deveria ser salgado aqui também, mas nos EUA as coisas podem inverter. Mas fiquei feliz ao saber que os árabes apreciam um bom tempero =)
Enquanto algumas iam cozinhando, outras iam conversando com a gente, e foi muito, muito bom aprender coisas sobre a sua cultura e ver seu ponto de vista.
Por exemplo, eu pensava que branco era cor da morte para todos os orientais, mas as meninas se casam de branco na Arábia Saudita. Tem duas cerimônias. Primeiro tem o noivado. Para essa festa os noivos podem convidar todos os amigos, e a cerimônia é num grande salão. A noiva se veste com roupas coloridas. Já o casamento é algo mais íntimo, só pra família, e a noiva veste branco. O noivo usa aqueles panos brancos com um círculo de pano prendendo na cabeça. Ele também usa branco. E algumas meninas gostam de usar hena nas mãos. Outras não. Nem todas as meninas eram casadas. Na verdade uma só. E fiquei surpresa, porque pensei que elas não podiam nem estudar, mas tem uma fazendo mestrado. E o marido dela está aqui com ela.
Acho que isso depende da família e da posição social, do quão rico você é. Mas eu não sei ao certo.
Uma delas está noiva, e todas em geral querem casar. Mas parece que as amigas dela estão mais empolgadas que ela. Passam horas procurando por vestidos de noiva na internet. Mas disseram que os vestidos daqui são muito simples. Na cultura delas, quanto mais cheio de detalhes é o vestido, isso mostra que você é mais rica. E uma delas me mostrou fotos de festas que ela foi. Acho que eram festas só de meninas ou de família. Elas não podem se mostrar para homens que não sejam da família.
E os vestidos, fiquei surpresa, são mais bonitos que os das premiações de óscares!!!
As meninas são muito bonitas. Se maquiam bem melhor do que o pessoal do ocidente. E acho (não sei se estou certa) que é bom ser mais gordinha na terra delas. Acho que não devem gostar de pessoas muito magras. Pelo menos foi isso que li nos livros.
Mas a menina que está noiva se encontrou com o pretendente (na verdade, prometido dela) uma vez. Foi a família que arrumou o casamento, como é tradição
Quando ela me mostrou uma foto dele, dei uma baita dum vexame.Não tenho uma impressão muito boa por causa dos livros que li. Sempre imagino que o marido será um homem pelo menos 20 anos mais velho que elas, que não toma banho, e tem unhas amarelas. Mas quando ela me mostrou uma foto dele, eu quase gritei: "Nossa, he is handsome!!!". Nem vi direito a cara dele, mas é jovem, e tava com uma criança. Parece ser uma boa pessoa. Ele estuda em uma universidade aqui tbm.
Eles vão voltar pra casa em dezembro, onde vão noivar. E vão assinar um contrato de noivado. Depois disse eles podem passar algum tempo juntos. Foi engraçado ver a empolgação das meninas ao dizer que eles podem conversar, se aproximar, se tocar e até se beijar!! A menina ficou muito tímida. E é engraçado ver que a reação dela seria a de uma menina de uns 12 anos no Brasil. Mas elas são realmente muito inocentes.
Perguntei pra ela se conversava com o futuro marido pelo facebook e ela disse que não, que não quer. Que eles podem fazer isso depois de noivar. E a vontade que não da de dizer: "Vc precisa conhecer ele! Ver se vai ser bom com vc, se vai te respeitar, se é um cara legal, se vc consegue se apaixonar por ele..."
Eu ficaria tremendamente ansiosa.
Entre meio a conversas as meninas iam mostrando músicas árabes pra gente. E descobri que é quase um insulto dizer que vc não sabe a diferença entre música árabe e indiana. Eles dizem que são completamente diferentes. Não têm quase nada em comum. Layla aprendeu a dançar. Eu não consegui. Acho que é muito delicado pra mim. Sei lá... vc tem que dançar muito lentamente.
E toda hora elas pediam pra colocar "Ai se eu te pego". Estavam doidas para aprender a coreografia. Acho que vão colocar essa música no noivado ou no casamento da menina.
Depois fomos experimentar a janta. Nossa, eu tive que dizer que foi a melhor comida que comi aqui desde que cheguei!! Arroz cozido, frango cozido, legumes temperados com caldinho, e um caldo que não sei como se chama, que vc coloca no arroz. É tão gostoso!! E é salgado! Comi duas vezes. Foi realmente uma delícia. Já estava começando a pensar que eu só gostava de comida brasileira, mas acho que conseguiria viver bem com comida árabe.
E quando dissemos que a mesa era muito farta, as meninas pediram desculpas. Disseram que aquilo era extremamente simples. Fiquei chocada. Eram pratos e mais pratos de comida... como podia ser simples?
Depois que terminamos elas nos deram um incenso que podíamos cheirar e passar a fumaça entre os cabelos. É a tradição. Achei estranho, mas fiz também.
A única coisa que não gostei é que elas usam algum óleo ou gordura muito diferente pra cozinhar. Eu não tinha percebido até chegar em casa. O cheiro se prende à nossa roupa e ao nosso cabelo, e é extremamente forte. Não sai com uma lavagem só de cabelo. Fiquei com medo de nem sair da roupa, mas ainda bem que saiu quando lavei. Acho que finalmente entendi o que a escritora queria dizer em O Livreiro de Cabul.
Mas foi um dia muito especial. Adorei conhecer uma cultura tão diferente da minha.
E ainda tive a oportunidade de ver as meninas orando. Quando o sol estava quase se pondo, duas delas vestiram túnicas e lenços coloridos (vc tem que usar roupas limpas para orar), pegaram os tapetes, orientaram na direção de meca e fizeram suas orientações. As outras não podiam fazer. A oração é proibida durante o ciclo menstrual. Após o fim, a mulher tem que se lavar e só então pode voltar a orar. É como se ela estivesse suja durante esse período.
Nossa, é tudo tão interessante.
Acho que eu teria muito mais coisas pra relatar, mas no momento não consigo me lembrar de mais nada. Então, vou ficando por aqui, porque já é tarde.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Syracuse, NY - EUA - Relatório 40

Syracuse, NY - EUA - Relatório 23

New York, NY - EUA - Relatório 34